segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Ressentimento - o território da dor humana - #1

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Ao longo do processo civilizatório, um estranho e destrutivo comportamento parece ter sido desenvolvido, culminando nos atuais e ameaçadores níveis, ao mundo e às peles. Sob o ponto de vista ético, um falseamento de valor - em relação a seu próprio valor, teria sido cometido pelo homem. Fundamentados na crença do bem e do mal, a adoção de valores falsos e inverdades estaria na gênese da dominação, escravidão, humilhação e impotência. Neste suposto conjunto excludente estaria ancorada uma falsa moral, os preconceitos e as injustiças.
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Distanciado de si e dos seus valores o homem encontra-se imerso em medo, dor e solidão. Neste vazio, desamparado e só, o homem ressentido e rejeitado, distorceria os princípios fundamentais do convívio civilizado. Nas reflexões acerca da conduta humana, há relevantes contribuições. Delimitamos este estudo no pensamento filosófico e em teorias psicológicas. Para focarmos esta análise, não incluiremos os aspectos religiosos e geopolíticos. Os estudos realizados evidenciaram advertências quanto ao ressentimento que assentaria na gênese e posteriormente na dissolução dos valores primordiais ao homem sendo este o propulsor de suas mais aflitivas dores. Do que valeria às nossas peles, compreender a genealogia de uma ética do ressentimento? É o que proponho refletirmos neste texto.
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Re_sentir seria: - sentir novamente algo que, vinculado ao sentimento de humilhação e impotência humana, resultaria numa série de tentativas com insucessos e assim, a cada novo sentir, os sentimentos de impotência e humilhação se repetiriam sequencialmente. Um sofrer profundo e surdo se concentraria, ampliando as marcas e dores interiores. No acúmulo haveria um transbordamento, um ódio doentio, numa espécie de auto-intoxicação permanente. Este instante de estrangulamento e crise poderia decorrer - do esforço psíquico do sujeito ressentido em reprimir, sistematicamente, a descarga de certas emoções e afetos que transbordariam, levando ao adoecimento físico ou psíquico de menor ou maior gravidade, chegando em casos extremos, aos desvios de conduta, ruptura social e, no ilimite, ao terror.
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Articulando o pensamento filosófico e psicológico, a ação de ressentir seria uma tentativa desesperada de refazer o sentimento de impotência. O ressentido, na penosa sequência de investimentos falhos, sofreria uma espécie de distorção em seu comportamento resultando em um processo desconstrutor que culminaria em altos níveis de medo, agressividade, destrutividade, dor e solidão. Os estudos sugerem que a distorção perceptiva o levaria a ver o objeto de admiração como demasiado bom no outro e inacessível a si. Diante da impossibilidade de tê-lo, o veria como - mau e indesejado. Disto poderia decorrer uma idéia de contágio e, em exposição prolongada à dor, tentaria negar, evitar ou banir a qualquer custo, aquilo que, vinculado a experiência dolorosa, o fez sentir-se impotente.
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O impulso destrutivo seria uma tentativa de tirar do outro, aquilo que é admirado e , supostamente inacessível a si. Poderia ocorrer um impulso voraz, insaciável e inconsciente de esvaziar até deixar seco de vida aquele que, admirando, percebe como um mal. Que motivos levaria o homem a abrigar em sua psique esses impulsos agressivos e hostis a si e a outrem? Seria possível ao homem de hoje, por si ou pelas gerações futuras, tentar reencontrar os valores do sentir, sem pressentimentos ou ressentimentos? Mundos e peles, histórias e geografias do humano que situam o homem como estrangeiro a si.

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Em substituição ao pensamento bélico, violento e destruidor, seria possível reaprendermos a demonstrar gentileza, civilidade e gratidão? De que modo, sem a destrutividade da espécie ou a degradação do planeta, nossas peles suportariam a incompletude, a dor e a solidão? Se há medos que são perpassados por gerações e se em qualquer idade, podemos estar aprisionados aos medos infantís, o que poderíamos fazer pelos nossos ressentimentos de modo a não comprometermos o livre sentir das gerações futuras? Haveria em sua pele memória de ressentimentos de um outro a si? Haveria em sua pele um ressentimento que pudesse estar sendo repassado? O que pensa sua pele que seriam caminhos possíveis em direção ao reencontro dos verdadeiros valores e princípios de cada pele, sem ressentimentos? Quais são suas verdades e suas mentiras? As contribuições de cada pele em suas experiências e comentários, nos auxiliarão na sequência deste estudo.
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Mai.
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o referencial teórico estão presentes o pensamento de: Nietzsche - genealogia da moral, a dissolução da moral coleção sendas e veredas
Freud, O Bem Estar da Civilização - Peter Berger, Perspectivas sociológicas - Max Sheler, El Ressentimento em La moral
Melanie Klein – Inveja e gratidão

terça-feira, 1 de setembro de 2009

medos - todo medo seria infantil?

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Continuarei refletindo os medos como heranças repassadas ou bloqueios adquiridos em experiências, que tenham causado desconforto, danos, dores físicas ou psíquicas que, vividas ou imaginadas, por si ou por outros, ficariam associadas a um dado negativo e, em complexos, afetariam em cadeia o sujeito, sua pele e suas escolhas.
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A partir disto, os traços mnêmicos (memória) mantém intacto e vivo o passado que, é atualizado, apenas e por nossa memória e desencadeia (pelo que associamos) (pela memória do episódio), a sensação de perigo, a dor sofrida e as reações ou não. Diante de um confronto análogo este medo retornaria, interferindo nas escolhas e deixando sentimentos de desconforto e insegurança ou uma desconfiança sem medida que poderia causar uma angústia em maior ou menor grau ou até mesmo insuportável, paralisante, autodestrutiva. As reações e os efeitos nocivos ao equilíbrio são distintas entre as pessoas. Decidi novamente pensar este medo que resulta da e na insegurança. Mas se falamos em passado e memória, seria pertinente cogitarmos que alguns germens teriam sido plantados, no tempo em que ainda éramos crianças? E nesta hipótese, todo medo seria infantil?
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Proponho que, juntos, pensemos o temor que por vezes ocorre diante de coisas que já sabemos mas também aquele que sentimos ao imaginarmos ou temermos o desconhecido. Por medo, deixamos de fazer as escolhas centradas em nós e escolhendo com base no outro, deixamos oportunidades para trás e por temor de perder, ficamos reféns e esquecemos que o acaso poderá nos tomar com a mesma intensidade ou dor. Aqui um ponto que nos cabe pensar: quais são os parâmetros às nossas escolhas? Ou de outro modo, seriam experiências passadas que nos servem nas escolhas?
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Para que possamos unir experiências e integrar idéias, proponho às peles que, leiam, reflitam e deixem as suas impressões, sobre o que pensam acerca das variações entre o medo primordial à preservação, sobrevivência, perenidade e outro medo, que sendo imaginário, emocional, subjetivo, escaparia ao poder e controle, causando instabilidade e insegurança. Medos, tem intensidade e localização variada. Poderia o medo desestabilizar ou em extremos, encarcerar potentes estruturas que a partir da insegurança, estariam frágeis, vulneráveis, instáveis? Na tentativa de explicar o medo infantil, decidi pensá-lo como uma espécie de instância anônima à qual, diante de situações reais de confronto, iminentes, latentes ou imaginadas, poderíamos identificar a origem, apenas sentir e nos paralisar, ou não. Medo nos remete a um desamparo primordial, algo que, sem nome, guardamos inato ou no intimo. Fortes em muitas situações, poderemos nos ver impotentes diante de acasos, destinos, perdas e uma enorme lista de fatores. Considerando ser primordial, e atribuindo que nos referiremos às experiências pregressas, ousarei perguntar às outras peles: não importando a idade, todo medo seria infantil?
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Diante da insegurança que decorre do medo, do descontrole emocional e pressa que acomete no momento e sob a premissa de nos protegermos, e nos defendermos, poderíamos pensar que os medos tenderiam a interferir nas escolhas? Ou o medo seria resultante de uma baixa inteligência emocional (IE)? Esta seria uma face positiva do medo ou ele seria um obstáculo aos fortes, potentes e racionais? Sob este argumento, o mesmo instinto que preserva a vida, se inseguros, nos paralisaria diante da escolha necessária à nossa sobrevivência?
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Pensei - se for assim, o mesmo medo que nos protege, nos inibe, paralisa, cega a capacidade de discernimento e controle do pensamento e emoção. Sob o efeito do medo originário e, decorrente dos complexos evocados pela memória, ocorreria a diminuição da capacidade de escolha e o aumento da insegurança. Assim, restaria como herança, a angustia de, perante uma situação de escolha, não saber lidar, temer perder a melhor opção ou sofrer longamente as dores sabidas e insabidas se houvéssemos tomado um outro caminho. A partir disto, os danos, equívocos, efeitos nocivos ou culpas, ficam novamente associados e localizados em fatos e pessoas que estejam envolvidas nas situações e contextos que, novamente, com mais um dado se atualiza e aumenta na memória os medos e as culpas. Pensando em culpas e medos, voltemos a questão inicial, todo medo seria infantil?
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Somos criadores do nosso pensamento e se somos e se o passado só existe em nossa memória, poderíamos modificá-lo em nosso pensamento e assim nos libertarmos e nos sentirmos centrados, seguros e auto confiantes. Poderíamos controlar o medo sendo mais inteligentes emocionalmente?
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Mai

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Autenticidade e Simulacro - O UNO...

Decidi convidar todas as peles a refletir acerca do que é ser UNO. Pensaremos sobre a autenticidade e os simulacros. São polos opostos, Tudo e nada, real e aparente e são opostos complementares assim como guerra e paz, amor e ódio, força e delicadeza, som e silêncio, beleza e fealdade, bem e mal, bom e mau. Há peles que trabalham com a imagem e a autenticidade, o real e o irreal o som e o silêncio. E o que é a beleza diante da imagem? Seriam modelos ditados pela estética que agora é modelada pelos homens? Um aquário é uma miniatura do mar um simulacro? É belo fora e dentro porque na transparência do vidro e da água ele mostra a beleza mas aquilo que contém é frágil. A beleza seria frágil em si? Então nossas peles poderiam refletir que seria preciso ser forte para poder conter a fragilidade e assim, não quebrar? O autêntico e o simulacro, a beleza real ou a imagem aparente. Mas um poderia existir sem o outro ou um precisa do outro para ser, em si? Então tudo é nada e tudo está em tudo?
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Então somente quem é forte consegue assumir seu lado frágil e inversamente se complementarem? Assim também o medo e a coragem estão juntos como a velocidade e a lentidão, tristeza e alegria, liberdade e cárcere e no conjunto, o UNO seria um microcosmo, um universo em UM e sendo dualidades que se complementam não deixariam de ser autênticas? Então a autenticidade também teria que contemplar um simulacro? Isto significa ter tudo e nada, porque teremos um e outro? Então sendo autênticos teríamos que suportar sermos simulacros, também como se fôssemos falsos como a imagem no espelho e para estarmos integrados sermos este universo de possibilidades e sermos UNOS precisaríamos ser tudo e nada, real e imaginário, concreto e ilusório não poderíamos ser autênticos sendo apenas de um jeito? Ou será que tudo está em tudo ?
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Isto seria uma loucura? Ou Loucura é querer uma coisa só, pensar em uma coisa só, obsessivamente uma idéia fixa, um polo apenas incompletudes força, liberdade, ilusão, ódio, uma coisa só, autêntica mas isto mata mais que um vírus HIV e a AIDS, porque não se contém o que escapa porque tudo está em tudo e o tudo está no conjunto das coisas. Então não dá prá ser apenas emoção, precisamos da razão e da lógica, não dá para ser apenas real e tangível, é necessário também a ilusão e o irreal o teatro é isto, a arte é isto, a música é isto é preciso que pensemos o que nossas peles sentem acerca disto porque a minha pele sente deste modo mas tenho dúvidas e muuitas perguntas e talvez eu esteja errada em pensar assim.
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Autenticidade e simulacros, mundo real e o mundo de aparências um existe no outro como um espelho onde um é beleza e real e o outro é imagem e aparência. Compreende? Como a matemática também é feita de milhões e também feita de zeros. Tudo é tudo e nada. E mesmo que os zeros venham antes, eles formarão os milésimos e isto somos nós, UNOs, INTEGRADOs, e tudo está ligado, junto. Se dizemos sobre música, dizemos sobre matemática, numeros, física, quimica, geografia, Lugares e HOMENS, isto é arte e a arte é real e irreal...
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Então tudo está em tudo, contido e descontido e quando generalizamos ou quando queremos uma coisa apenas, separamos e desjuntamos o que nunca se desjunta mas nos escapa porque não se detém e é exato e inexato e não cabe em si. Mas isto não seria o Caos e sua ordem desordenada? Então a autenticidade, do modo como se entende como ser, apenas de um jeito sendo força, coragem, velocidade, alegria e liberdade, é que nos faria ser incompletudes porque fialtariam as outras metades? Então porque não há começo nem fim porque é infinito, finito, exato e inexato é que nos é impossivel deter, conter ou reter o universo que está em nós? Então é por isto cada UM é um microcosmo e assim somos miniaturas do universo e portanto somos autênticos e simulacros? E seria por isto que precisamos ter poder sobre nós, sabendo que ao mesmo tempo o poder não se detém e nos escapa? Então a loucura que escapa é esta, que subjaz ao poder porque algo sempre escapará e nunca deteremos mas resta-nos governar isto que é nosso território, nosso país e nosso estrangeiro? E este UNO - autêntico e simulacro do universo que somos nós há coisas que conhecemos e outras que ainda estão por vir? Só tenho perguntas, não tenho as respostas mas cada um pode ter uma, a sua. É tarde, mas deixo aqui o convite para que todas as peles que parem e leiam, opinem sobre isto que ando pensando e que é a loucura de ser UNO e, sendo autêntico e simulacro, ter um universo em si.
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Mai
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domingo, 12 de julho de 2009

a história da loucura na loucura da história...


A invenção – Erfindung – é, por um lado, uma ruptura, por outro, algo que possui um pequeno começo, baixo, mesquinho, inconfessável. Este é o ponto crucial da Erfindung. Foi por obscuras relações de poder que a poesia foi inventada.
Nietzsche
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No sentido histórico, as questões do poder perpassam os grandes fatos, datados no tempo. Assim também, historicamente, a modernidade deixará um legado de invenções que em sua emergência estarão vinculadas à esta época. A partir da genealogia da história encontramos pequenos começos que envolvem micropoderes como um campo de forças e, entendendo a história, como este campo em que forças, em determinado momento, emergem e com elas, práticas e saberes, decidí propor às nossas peles, uma reflexão sobre a invenção da loucura e sua emergência, datada na história. Ressalto que meus estudos, acerca da história da loucura, estão embasados em Nietzsche e Michel Foucault.
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No que concerne às discussões acerca da saúde mental no último século e a partir dos novos paradigmas referentes aos cuidados psicossociais aos portadores de transtornos severos, foi possível pensar que a loucura, nos moldes excludentes em que se configura, teria sido inventada e sua história, datada no tempo, tem gênese nas práticas enclausurantes e sua invenção encarcerou muitas peles no modelo asilar. Vejamos o que nossas peles pensarão a respeito deste tema após esta leitura e sob a ótica de um estudo genealógico da história.
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O contexto dos primórdios do asilamento e da doença mental foi retratado historicamente, como uma invenção oriunda da Revolução francesa e, na contra mão da liberdade ali estaria assinalada, a gênese do confinamento, calcada na capacidade produtiva do sujeito. Até então não havia discurso médico acerca da doença mental. Os considerados pela alteridade como marginais – e neles incluídos os “loucos” – passaram a ser internados, pois eram ditos incapazes de convivência social e não tinham utilidade para o sistema econômico que vinha se delineando à época. A história da loucura e da psiquiatria, confunde-se com a história de um processo de asilamento e de medicalização da sociedade. Trata-se aqui, da pedra angular de um paradigma pautado no poder e na disciplina.
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O paradigma da ciência clássica, calcado na lógica racional cartesiana, propunha a ordem, a norma e a coerência. Serviu de inspiração a um modelo reducionista e determinista, ao qual a diferença, a contradição , a rebeldia a contestação e a loucura, tornaram-se um contraponto. Justificava-se assim, a instauração do confinamento, principal estratégia de exercício de poder sobre os loucos e os desviantes de toda sorte. Historicamente os loucos foram desacorrentados e libertados das prisões e, estranhamente transferidos para outra prisão – os manicômios, iniciando assim, seu calvário.
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Modelos excludentes pautados na lógica manicomial estão sendo discutidos mas a grande questão é podermos olhar a loucura com um olhar diferenciado e o que propomos é que nossas peles possam se permitir, discutir e pensar em um outro entendimento possível, acerca do que são as diferenças para a alteridade e, consequentemente pensarmos a participação de nossas peles nos processos de exclusão social. Nesta direção propomos alguns questionamentos: o modelo hospitalocêntrico ainda caberia em nossos dias como modelo hegemônico? E seria possível pensar em uma rede de assistência em que bons hospitais pudessem compor? O que poderia ser oferecido aos casos mais brandos? E os casos de transtorno severo, qual seriam as alternativas possíveis de assistência? Em dias de tanta loucura, caberia persistir na segregação do diferente e desta vez, não apenas por motivos econômicos, ou também por motivos econômicos?
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Os Hospitais, sobretudo os Psiquiátricos, guardam, ainda hoje, características de uma forma de poder exercido sobre os corpos, pautado na vigilância e na disciplina. O “panopticon” inventado por Bentham, alude à arquitetura dos espaços enclausurantes, submetendo os corpos à visibilidade e domínio de um olhar vigilante. O hospital psiquiátrico ainda carrega o estigma de espaço esterilizador das trocas sociais. Movimentos precursores na Itália, inspiraram discussões que, no Brasil, tiveram sua fase embrionária, na década de 70. Sabemos que há sofrimento das famílias dos portadores de transtornos severos porém, o maior desafio talvez seja pensarmos, agora, na conquista de um lugar social para os “loucos”, lugar este onde possam ser tratados de forma mais justa, mais acolhedora, mais respeitosa, capaz de resgatar-lhes a cidadania.
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A despeito de todos os fatos e avanços verificados até o momento, cumpre-nos o registro de que paralelo ao processo de Reforma, ainda há um jogo de forças e a despeito da implementação de outros dispositivos assistenciais, para muitas peles, em muitas circunstâncias, as práticas asilares ainda são vistas e mantidas, incompreensivelmente, como forma hegemônica de cuidado aos portadores de transtornos psíquicos. O que pensa sua pele sobre a loucura e a prática excludente do enclausuramento?
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Mai

sábado, 13 de junho de 2009

Tempo, imagem e espetáculo virtual - A dor lucrativa e o consumo da significância social...


Tempo e imagem são temas que causam fascínio ao homem moderno. Nesta direção o culto à imagem e o desejo de desacelerar o tempo é gênese das manipulações dos corpos daqueles que buscam a estética ideal. Acresce a isto uma incontrolável necessidade de exposição à mídia. Este conjunto de fatores foi percebido como possível ‘sintoma social’ e originou estudos acerca da hipótese de estarmos vivendo, em uma sociedade que vem sendo chamada de: ‘sociedade do espetáculo’. A visibilidade midiática vem transformando atores sociais anônimos, em celebridades públicas. Este fenômeno vem sendo estudado e coloca a alteridade como vítima e algoz de si mesma, cedendo espaço privado e assujeitando-se à mídia. Minutos de fama tem levado aos palcos televisivos, episódios impensáveis – reais ou produzidos, onde a vida privada é exposta publicamente e veiculada em todos os horários possíveis como cenas virtuais ou fatos em tempo real.
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De um lado a exploração da mídia, sobretudo a televisiva, no outro o consumo dos espectadores que assim autorizam a manutenção do ciclo lucrativo de tragédias em tempo real. Há pessoas que são mais suscetíveis às impressões que seus sentidos apreendem das cenas mostradas. Estas sofrem efeitos nocivos da exposição aos dramas. Mesmo assim, alguns entre esses, insistem em sintonizar os noticiários sensacionalistas. Neste espaço não discutiremos a importância da informação e também não questionamos a necessária liberdade de expressão. O que proponho refletirmos neste espaço é o fato de não estranharmos os excessos e nada fazermos diante da constatação dos ilimites à exploração e exposição de matérias da vida real. Haveria uma espécie de banalização das dores cotidianas? Tragédias urbanas invadindo os espaços poderiam suscitar uma espécie de dessensibilização social?
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Há algum tempo me recuso a contribuir com a audiência destes fatos e tenho refletido sobre a necessidade de veiculação das imagens trágicas, em tempo real que tem sido uma prática comum na imprensa. Por vezes parecem estar alheios às histórias e contextos existenciais das pessoas envolvidas. Noutros momentos tenho a percepção que o acontecimento parece ser preterido à audiência. É como se não houvesse dor ou dano às peles envolvidas nas circunstâncias. Seria possível conceber que a lógica capitalista, não impõe limites para a intervenção das mídias? Seria razoável pensar em limites à atuação da imprensa diante dos nossos direitos à privacidade ao rejeitarmos os ilimites da mídia? É importante lembrar que, neste momento, corpos de vítimas do recente acidente aéreo, ainda estão sendo resgatadas em águas próximas à Fernando de Noronha. Discutindo este tema, nos situamos em condição de igualdade para pensarmos: como vemos à exploração desses fatos? Quanto nossas peles contribuem para os níveis de audiência dos veículos que lucram com a dor alheia?
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Atravessando os espaços e em nome do lucro, a sociedade de consumo, parece estar disposta a reificar, coisificar, quase tudo. Abusos da mídia e o necessário resgate da ética nos veículos e profissionais de comunicação, vem suscitando discussões. É fato que as relações sociais são perpassadas pela comunicação. Nessa direção a informação tem um valor incalculável. O que desejamos pensar é, em que momento, nós permitimos que a mídia como instância de poder, ocupasse os espaços vazios? Porque concedemos e não estranhamos que a mídia, tomasse as vidas, como mercadoria consumível e explorasse a morte e sua dor, como signo de alto valor nesse espetáculo vampirisante? Onde está situada nossa capacidade de estranhamento e porque teríamos permitido que, tragédias coletivas e dramas pessoais fossem elevados ao status de ‘fetiche’ midiático?
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De que maneira, quando e como nós nos apartamos de nossa significância social e cedemos lugar às manipulações alienantes? Quando um fato não era transmitido em tempo real, os recursos midiáticos o transformava em matéria virtual repleta de imagens, dissociada do contexto e do seu tempo. Assim a mídia produz um espetáculo e sem estranhamento ele é corroborado por nossa percepção, cognição e intelecto. Fatos reais recebem o cunho de espectro e, por mais dramáticos que sejam, transformam-se em mercadorias mantenedoras da audiência televisiva que resulta em lucro.
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A recente tragédia aérea, suspendeu todas as regras do sistema e situou a própria mídia em meio ao desespero e a impossibilidade. O vazio, o nada de informação era o próprio fato. Uma ausência de poder era bastante para explicar que não havia nada além de animações e simulações, suposições ao vazio. Como manter a audiência com a manipulação de imagens? Parece que ao menos por alguns instantes a mídia ocupou o lugar do vazio pois diante da impotência e impossibilidade de saber, não haveria como capturar os sentidos e a inteligência do sujeito que parece estar sendo, cada vez mais reduzido, em sua significância social. Como sua pele se vê diante desta reflexão?

domingo, 24 de maio de 2009

Medos, preservação e modernidade...

Os Medos em uma vasta lista, reais ou psíquicos, são comuns e, em níveis medianos, podem ser considerados sadios. O fato atávico do medo tem gênese no instinto de sobrevivência e conservação da espécie, bem como tem uma articulação com a linguagem, perpassando gerações, em forma de atavismos. Traumas reais, dores, vazio e uma iminente ameaça de queda, são algumas das marcas psicológicas do homem ocidental contemporâneo. O medo aciona um gatilho atávico, mais conhecido como luta ou fuga e lutar tanto quanto fugir, são reações possíveis. Pensar e refletir o que o medo significa para sua pele é algo que faremos aqui.
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Se alguém sofre um assalto quando está numa agência bancária, poderá sentir medo de novamente, dirigir-se a um Banco. Esta seria uma associação que a mente humana produziria. Uma das hipóteses teóricas seria de que o inconsciente, sendo atemporal, faria uma atualização e, tudo que você está vivendo, seria compreendido como acontecendo no momento presente. O medo afeta a sua auto-estima em prejuízo de sua autoconfiança. Que outras possibilidades sua pele poderia oferecer como plausíveis?
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O medo não é uma reação patológica. Antes é uma espécie de proteção e, sem dúvida alguma, nos remete ao conceito de autopreservação. Conscientemente, quando estamos limitados por medo irreal, ele pode se transformar em temido pânico. Quando o pânico se instala, o sujeito não foge ou enfrenta seus “fantasmas”. Fica hesitante e descontrolado. Sinais e sintomas variados, vem sendo estudados. Parece existir uma espécie de regressão a um estado ancestral que poderia congelar as ações. Os sinais de perigo ou ameaça, deflagram alertas fisiológicos do medo e, com pânico, sem utilizar os mecanismos de luta ou fuga, as descargas adrenérgicas levam o sujeito a perceber-se com sintomas de infarto, por exemplo. Mãos frias, aceleração cardíaca, são alguns dos sintomas fisiológicos mais simples e comuns, do pânico. Assim, a exacerbação dos receios que culmina com o pânico, poderá levar à obstrução do fluir natural da vida.
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Para que possamos pensar o medo que nossas peles sentem, será preciso compreender os mecanismos de tensão entre o passado e o presente e sua complexa operação mimética. São mecanismos que utilizam os comportamentos atávicos e a linguagem para articular o medo. Porquanto imerso em linguagem, o que conhecemos como passado poderia não ter correspondência com os fatos vividos em um momento específico. O passado está vivo, contido no presente e envolvendo-o também. Os antepassados, como uma espécie de herança genética, transmitem, através da linguagem, as principais ruínas emocionais de tal forma que estes conteúdos sensíveis, transformam-se em uma uma informação, repleta de afetos cuja intensidade, poderá ir crescendo e aumentando em vulto e importância. Os índices máximos destas experiências, repetidas e perpetuadas por gerações em transmissão oral, poderia levar tais receios a estados graduais de cautela, limitação, desconfiança, insegurança, angústia, até o pânico e terror paralisante.
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Para a realidade psíquica não há a exigência de uma realidade objetiva. O que passa a ocorrer é tão somente uma reconstrução de traços. A semelhança seria decodificada como comportamentos atávicos. A memória se encarrega de organizar e reter os residuos pregressos. A consciência, via percepção, faz a conexão do presente com o passado e deflagra o medo e as reações a este. Nesta articulação, a percepção une os registros mnêmicos emocionais, com uma carga de afeto por vezes, maior do que o evento daquele momento.
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Já o inconsciente não distingue o que é fantasia da realidade ou o passado do presente. O pensamento passa a ser presentificado e, sua mente acredita tratar-se de algo real. As repetições, se transformam de associação a um padrão de pensamento. Os perigos próximos e reais são temidos e podem surgir em função das associações operadas ao longo da vida. Imersos na linguagem, somos suscetíveis aos comportamentos aprendidos, nas repetições de experiências passadas. Novos fatos reconstroem os traços e assim mantemos viva aquele comportamento atávico que nos foi transmitido através das gerações. Aqui, a imaginação é o elemento que mantém vivo, o medo.
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É comum algumas peles afirmarem que não conseguem realizar projetos, atingir objetivos, alcançar metas das mais simples às mais complexas. É preciso que estas peles reflitam os mecanismos do medo para que possam libertar-se destas limitações. Os medos que a sua pele sente, foram aprendidos? De outro modo, você os transmitiu aos seus descendentes? E sua pele, de que modo poderia contribuir para que juntos, pudéssemos compreender o que está por trás dos medos da humanidade? Porque o medo tem vitimado tantas peles?
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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Estrangeiros e Viajantes, o que nos protegeria? Blogagem Coletiva

Um desamparo primordial – “O Céu que nos Protege” foi o filme que repercutiu mais fundo as minhas emoções.
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Como a minha pele experimenta o universo cinematográfico? Que leitura emocional a psique faz desta Arte? Qual filme teria impactado em minha pele, as questões mais profundas?
Sobre as experiências que o cinema e, no conjunto – roteiro, trilha, fotografia, fazem ecoar nas camadas mais fundas do coração humano, cada pele poderá fazer uma interpretação particular.
O que levanto neste momento é a possibilidade de que a partir da história de um sujeito, uma Obra cinematográfica que condense em sua trama, um conteúdo fundamental, poderia repercutir de forma profunda e capturar as emoções primordiais em uma determinada psique. Seria por esta razão que cada pele guarda uma impressão particular e única sobre um determinado filme? Eu poderia falar que senti algo assim em “O Céu que nos Protege de Bernardo Bertolucci.
E eu explico. A beleza da fotografia, a trilha sonora e o belo elenco, por certo contribuíram para o estado de suspensão em que me vi.
Mas não foram estes os fatores mais relevantes desta experiência.
O que senti ao ver este filme, foi uma conexão profunda, com a experiência mais forte do humano – O desamparo primordial.
Este sentimento nos conecta com o vazio e, no processo de humanização, nos leva a desejar companhia e exigir a presença ativa de um outro que nos complete e ampare.
Este filme ensejou uma importante reflexão acerca do que fazemos ao longo da vida e o que somos enquanto existimos cotidianamente.
Como poderíamos pensar o ir sendo de nossas peles, se há um desamparo que, supostamente eu não conseguirei preencher?
A esperança de que exista uma possibilidade de felicidade, a partir de uma vida com um outro, poderá se configurar como inútil.
Ou seja, o futuro seria incerto porque poderia resultar na constatação de que o acaso, sempre nos conduzirá de volta ao desamparo primordial.
Este filme levou-me a constatar que sou uma estrangeira de mim e em mim mesma.
Além disto constatei o sentimento de estrangeireidade que me habita.
Não somos turistas na vida. Vivendo, somos viajantes.
Humanos, estamos expostos ao acaso.
Turistas vão e voltam mas VIAJANTES, podemos ir e não voltarmos das experiências às quais nossas peles se exponham.
Neste filme com mais de duas horas e meia de duração, um casal, após dez anos juntos, partem em uma viagem pelo deserto.
Na experiência da morte, o desamparo, o sentimento de estrangeireidade e a certeza de que somos viajantes na vida.

Neste filme de Bernardo Bertolucci, Debra Winger vive Kit e John Malkovich, vive Port. A trama evidencia o impasse da morte e a questão do desamparo que nos conduz à busca do outro.