domingo, 22 de fevereiro de 2009

Alteridade - O Eu e o Outro Eu...


Sempre gosto de pensar a criança na elaboração do pensamento e
linguagem e demais funções psíquicas. Esta será uma idéia recorrente em nossos textos. Todas as crianças costumam ter seus 'amigos ocultos'
ou 'invisíveis'. Em seus diálogos com esse 'outro', invisível aos olhos alheios, a criança confia seus segredos.
Qualquer adulto que pretenda
sondá-la à respeito, precisará gozar de
inteira confiança do pequenino.
Assim é o Alter Ego - Um amigo ítimo.
Um "outro Eu" a quem se pode confiar,
tanto como quem confia em si mesmo.
Aqui é importante atentarmos para os conceitos de
'intra-psíquico' e do que é externo à psique humana.
.
Um encontro esta semana, levou-me a discorrer sobre o tema alteridade.
O ‘Eu’ será pensado como ‘identidade’ e oposto a esse sentido,
encontraremos o ‘Outro’ Eu – o alter Ego.
Tema complexo e com visões distintas, a alteridade atravessa diversos saberes. Prefiro pensá-lo como eixo comum, nos olhares da filosofia, psicologia e sociologia.
Quem é esse outro a quem nos referimos como diverso a nós?
Quem é esse outro que nos fala e cala?
Quem é esse outro que rejeitado socialmente,
rejeitamos no outro e automaticamente
reprimimos em nós e nessa direção mais
facilmente atribuiremos,
sempre ao Outro o que não admitimos em nós?
Parece difícil pensarmos que nós somos seres ambíguos e duais. Impossível admitirmos em nós a lucidez e a loucura.
Mais fácil bani-la para que não sejamos ‘agredidos’ com o que nos é diverso. Supondo saber o que no outro é estranho a nós, criamos os estereótipos, julgando a superfície do outro.
Pensemos em nossas peles e em nossas experiências.
.
Quantos desejos ou vivências ocultamos
porque reprovamos e condenamos no outro?
E esse algo que condenamos no outro e
que ocultamos ao outro que existe em nós,
somente nós sabemos desejar?
Quantas vezes atribuímos ao outro a
responsabilidade pelos nossos atos e escolhas?
Quem teria soprado aos nossos ouvidos
as ordens e os comandos do faça-se?
Quantas vezes um outro que aparece
e desaparece soprou-nos uma missão?
Será que algum outro ou qualquer
instância externa a nós saberia o que é intrapsíquico?
E isto seria possível sem que houvéssemos comunicado?
Alguém pode penetrar em nossas mentes?
Então que é alteridade e quanto há de
mim nesse outro a quem eu condeno e excluo?
Então de onde viriam a culpa e a vergonha?
Do Outro Eu?
Que é esse outro eu, diverso a nós?
Diverso a nós ou parte nossa que renegamos?
Porque renegamos?
Como apaziguarmos esse diálogo de dualidades?
E sua pele, como sente este tema?
Em psicologia remeteremos alteridade à primeira relação oposta ao ‘sujeito que pensa’ – EU – e o objeto pensado , como o Não Eu. A filosofia pensará nas relações com outrem e a sociologia admitirá o Ser em sociedade sendo este, suscetível às influências e pressões sociais e históricas.
...
Mai

domingo, 15 de fevereiro de 2009

A Pele e o tempo - A dor suas causas e efeitos...

Decidi pensar nas dores humanas e no tempo.
Pensar em ambos - causa e efeito.
A minha pele foi criança um dia. E não importa quantos anos eu já tenha vivido, a memória da pele da criança em suas experiências, ainda habita em mim.
Em seus experimentos as crianças elaboram os conceitos e a lógica do pensamento, linguagem, percepção e emoção. Não poderia julgar se todas as peles necessitam as mesmas experiências. Minhas questões sempre envolvem o tempo e seus efeitos e o tempo como causa.
O lúdico sempre serviu para que eu encontrasse a boa medida de permanência e exposição ao que me é nocivo. O que me é diverso, nem sempre é ameaçador ou nocivo. Tolerância às diferenças é um outro tema. A questão é a medida de exposição ao que me causa dano ou mal.

A brincadeira consistia em ‘atravessar’ 'transitar' 'passar rapidamente' o dedo indicador pela chama de uma vela. Se eu me detivesse segundos além do necessário à passagem e transição, sentia dor. Se me detivesse ainda mais tempo, além da dor, aquele tempo a mais com o dedo exposto à chama, 'causava-me' uma bolha que me impedia de brincar.

Qual era a causa da dor?
A escolha da brincadeira?
A chama?
A experiência?
Ou o tempo de permanência e exposição ao fogo?
Que é causa?
Que é o mal aqui nesta experiência?

Pensei que quanto menor o tempo que eu me detivesse exposta, menor seria a dor. Inversamente os efeitos e os danos podem ser irremediáveis.
Podemos 'atravessar o tempo de um lado ao outro. Do passado tenho memórias e referências. No futuro existe algo que não sei, pois não há como prever o meu ser e o meu estar diante do inesperado inerente ao viver. Poderei prospectar um futuro, traçando metas...
Mas a minha ação está no agora, no hoje.
No hoje e no aqui e agora, é que estamos revisitando aquela 'brincadeira' com a chama. O jogo é a vida, o viver e a dor e está aqui a decisão de permanecer mais ou menos tempo exposto à chama.
Minha Pele ‘sofre e sofrerá’ a influência de ambas as instâncias do tempo - no hoje, passado e futuro poderão interferir, paralisar, adoecer, fazer sofrer.
Viverei mais ou menos o meu hoje melhor ou pior, à medida da minha escolha pela permanência ou trânsito no tempo - chama.

Estaria aí a questão do ser e do estar na dor?
O que as outras peles sentem?
***
Mai

sábado, 7 de fevereiro de 2009

vazios...


Pareceu-me razoável questionar certezas.
Isto que, à priori ou previamente, se possa ter ou conceber sobre alguém ou alguma coisa. Então preciso duvidar e refazer o meu caminho, reconstruindo o que eu ‘supunha’ ser uma verdade sobre aquele alguém ou sobre aquela coisa – talvez um pensamento...
...
O que ficou evidente é que, antes de adentrar uma gruta não terei como saber se essa é bela ou inóspita. Do mesmo modo e principalmente, quando refere-se ao homem, não há como supor que sei o que está no outro. Assim, seria inútil supor o que pensava, sentia ou movia Mozart na composição do Réquiem.
...
E sobre algo que eu não tenha vivido em minha própria pele, não poderei supor, antecipadamente, o meu sentir ou fazer qualquer inferência fora da minha experiência. Não há modelos ou essência em princípio.
Se é assim não haveria um livro em cada um?
Imaginemos que para que eu escreva talvez eu precise ‘criar’ e, mesmo que isto não seja uma realidade, passará a ser, porque eu a inventei... Não é simples, mas cabe reflexão.
...
Um ponto que merece análise é que não terei como negar a existência de espaços vazios em grutas, partituras, em gente e em coisas... Isto me faz crer que o vazio ou os vazios merece ser pensado. Uma tela em branco é o vazio sobre o qual o artista expressa o seu, inscrevendo a sua arte. Quando ao final assina a obra, o vazio que era a tela e a ânsia artística, está na tela e ambos, tela e artista, estão plenos em arte.

E nós? Como e quando estaríamos plenos? Com muito ou com quanto e com qualquer quantum e qual o preenchimento possível? Pensei que para alguns, um afago, um olhar, um poema, a literatura, são bastante. Há os que querem e pedem demasiado e que, jamais, buscam em si, outras possibilidades e depositam a responsabilidade de preenchimento, apenas, no outro...
...
Sempre o desejo deverá ser preenchido pelo outro? E esse outro que sempre se colocou ali, tamponando um vazio, como se fosse um ‘objeto’ de preenchimento, não tem vazios seus? E porque se permite ser ‘tampax’ no vazio de outrem? E se subitamente eu quiser ir embora ou for embora?
Se é assim, a escrita é uma forma de expressão que preenche vazios?
Mas é a única? Não sei.
...
Mas tenho pensado em pontes que permitem travessias sobre os abismos.
A arte seria uma ponte através da qual o homem conseguiria atravessar em sua caminhada vida afora e a literatura preenche o escritor e sua sombra – o leitor, para quem escreve?

Queria pensar nisso e saber o que pensam outros homens e outras peles.
***
Mai